segunda-feira, 29 de junho de 2009

Titia é de morte

Danilo decide visitar a tia Eulália, com a intenção de conseguir mais um empréstimo. Dessa vez, ele precisa colocar aparelho nos dentes da filha caçula. Ao chegar à casa da tia, ele encontra Rebeca, a sobrinha criada como filha pela dona Eulália. Os dois percebem que dona Eulália não está respirando e que pode mesmo estar morta. Mas, a última coisa que eles querem é enterrar a pobre mulher, que ganha uma generosa pensão.

Ouça: Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quase famosos

O Rio de Janeiro é uma cidade peculiar em relação aos seus famosos. Porque a todo momento você corre o risco de esbarrar em um ator da Globo, da Record, SBT ou qualquer emissora paga ou aberta que tenha alguma filial por aqui. E, ao se deparar com uma dessas ilustres criaturas, a reação geral do carioca (e do não carioca adaptado à cultura carioca) é tratar a situação com a maior normalidade. "Ah, o Antônio Fagundes, claro! Ele estava ontem no supermercado comprando Activia." Talvez seja exatamente por isso que os locais não se surpreendem ao encontrar uma celebridade. Estão todas elas fazendo coisas normais, como pessoas normais, e isso, o tempo todo, cansa. Você pode pensar "Ah, lá vem a Fernanda Montenegro aqui na praia esticar a canga dela do meu lado lado de novo!". Sim, pode ser cansativo ficar posando involuntariamente de papagaio de famoso.

Mas nessa fauna de famosidades há também outras pessoas que circulam por aí, sorrindo, com uma pose distinta, tórax em geral mais aberto, e que você olha uma vez e tem vontade de olhar de novo só pra saber se você as reconhece. São as pessoas com "cara de sou famoso" e você quase sabe quem são, mas, por um simples lapso de memória, elas escapam da sua mente. E aí é que vem a pior parte. Você passa horas e horas se perguntando "da onde conheço essa pessoa?" e nada, nenhuma imagem lhe chega com clareza. É apenas um borrão, um desenho gestáltico perdido na imensidão da psique. E é aí que mora o desespero. Porque a Fernanda Montenegro a gente sabe quem é (e sabe até demais), mas e esse "famoso quem" que insurge na rua, todo cheio de si, parecendo que já protagonizou todas as novelas da Globo e você, pobre mortal, é incapaz de reconhecer?

E muita gente, assim como eu, pode acreditar piamente que o sujeito ou a sujeita de pose e circunstância de fato representa alguma coisa para o imaginário televisivo, teatral ou cinematográfico e você, ignorante das artes, não foi capaz de enxergar. E o que se faz para reparar tamanha injustiça com tamanhos monstros sagrados da dramaturgia? Deixemos que entrem de graça em todas as peças de teatro, boates da moda e coquetéis à esporte fino. É o mínimo que podemos fazer diante de alguém com "cara de sou famoso".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Saiu na revista Piauí, edição de junho



Não escuta que eu grampo

As originalidades de uma rádio pública de Brasília

PEDRO SCHPREJER

Na sexta-feira, 1º de maio, o ouvinte do Distrito Federal que sintonizou o rádio na frequência 104,7 MHz se viu diante de um espesso enredo: "O detetive Virgulino Teixeira foi contratado pela dondoca Marilda para seguir os passos do marido dela, o empresário Aderbal. Ao instalar escutas telefônicas na casa e no escritório do empresário, o detetive descobriu um esquema de superfaturamento." Sob os acordes dramáticos de um tango de Piazzolla, a trama se adensava: "Agora, Virgulino quer dinheiro do empresário para não abrir o bico sobre a falcatrua." O próprio Virgulino tratou de se explicar: "Isso não é chantagem. Isso é toma-lá-dá-cá."

O caso já vinha se estendendo havia cinco dias. Na segunda-feira anterior, Virgulino anunciara à dondoca Marilda: "Vou colocar uma escuta telefônica na sua casa. Sou conhecido em todo o universo investigativo como Araponga Grampeado." Na terça, dondoca Marilda começou a hesitar: "Detetive Virgulino, não me leve a mal. Mas ouvi dizer que ficar instalando essas escutas por aí pode dar... pode dar..." Dondoca Marilda parecia ter medo da palavra. Com um suspiro, soltou alarmada: "Pode dar cadeia!"

Na quinta, diante da descoberta de que o marido era corrupto, dondoca Marilda sugeriu que as gravações fossem encaminhadas à polícia. "A senhora enlouqueceu?", perguntou o detetive, ríspido. "Se a polícia receber as fitas com as minhas interceptações telefônicas, quem vai preso sou eu." Didático, Virgulino explicou: "Grampo só é legal com a autorização da Justiça, dondoca Marilda."

O caso não saiu nos jornais. Só existiu para quem é adepto dos folhetins produzidos pela Rádio Justiça de Brasília. Intitulada Não Escuta Que Eu Grampo, a história de Virgulino e dondoca Marilda foi transmitida ao longo de uma semana, em cinco capítulos de cinco minutos cada. Calcada na farra dos grampos, tornou-se a atração mais comentada desde o início da emissora, em maio de 2004.

Coordenadora da Rádio Justiça, Madeleine Lacsko afirma que o Supremo não teve nenhuma participação na escolha do enredo: "Imagina se os ministros do stf vão se preocupar em definir tema de radionovela." Ex-apresentadora de um noticiário da Rádio Jovem Pan, ela garante que a história nada tem a ver com os embates entre o ministro Gilmar Mendes e o delegado Protógenes Queiroz: "A rádio foi criada para dar transparência à Justiça. Eles sabem que, no dia em que houver interferência, isso tudo perde a razão de ser."

A grade da emissora é composta por programas informativos e educacionais, além de transmissões titilantes de sessões do stf. Há espaço ainda para um pouco de música brasileira e debates, bem como para programas infantis que explicam o bê-á-bá do direito a crianças que precisem saber o que é um habeas corpus. Os estúdios estão localizados no subsolo do edifício sede do Supremo, de onde a emissora transmite para todo o Distrito Federal.

Até junho do ano passado, as radionovelas eram esporádicas. Com a boa aceitação do público, os capítulos passaram a ser diários. Ao todo, foram escritas quase sessenta novelas. As tramas remetem a questões jurídicas que estão presentes no dia a dia do cidadão. Em As Aventuras do Defensor Público, a dupla de funcionários da Justiça Bartolomeu e Robson enfrenta temidos vilões do Planalto Central. Um Estranho no Ninho fala sobre o Estatuto do Estrangeiro. Quem Viver Verão - assim mesmo, com jogo de palavra - aborda os direitos do consumidor durante uma viagem de férias: gasolina adulterada, venda de bilhete de ônibus duplicado, extravio de bagagem.

O cérebro por trás dos folhetins é Guilherme Macedo, jornalista brasiliense de 28 anos, especialista na cobertura do Judiciário. Para compor as tramas, Macedo se apóia no tripé Nelson Rodrigues-Dostoiévski-Cassiano Gabus Mendes. Diz que o primeiro "entendeu como se escreve diálogo no Brasil"; o segundo mostrou em Crime e Castigo "o que é a justiça na cabeça das pessoas"; quanto ao último, Macedo sustenta que a morte de Gabus Mendes representou o fim "das novelas engraçadas de crítica social" no país. Vez por outra, o dramaturgo grava participações especiais nas histórias: já fez um cão falante e um pisca-pisca vaidoso que exigia ser chamado de "Iluminador Natalino".

Os personagens são interpretados por funcionários do Supremo, nas brechas do expediente. Virgulino Teixeira recebeu a voz de William Galvão, apresentador do noticiário da própria Rádio Justiça. Dondoca Marilda foi vivida por Odette Rocha, funcionária concursada do stf. Os dois são o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall da Rádio Justiça, o par mais constante das peças de Macedo. O elenco de apoio varia. Luiz Flávio Borges D'Urso, presidente da oab de São Paulo, já fez uma ponta, interpretando por telefone o Doutor Palhares, um advogado trabalhista da trama Alice no País do Trabalho.

Fiel a Nelson Rodrigues e Dostoiévski, Não Escuta Que Eu Grampo termina de maneira trágica - ainda que cívica. Imbuída de espírito cidadão, dondoca Marilda resolve denunciar Aderbal, o marido corrupto, mesmo depois de descobrir que ele não era infiel. "Ó, duvida cruel!", suspira, antes de mandá-lo em cana. A operação termina com a prisão de quinze pessoas, dentre as quais o detetive Virgulino Teixeira, acusado de gravar ilegalmente a conversa alheia.

Guilherme Macedo defende a dura decisão de sua personagem: "Mas ela estava sendo traída! Aderbal era infiel em relação à coisa pública. Marilda se sentiu como o governo ao ter os cofres esvaziados."

Espera-se uma chuva de divórcios em Brasília.

sábado, 30 de maio de 2009

Apátridas

Geralmente um homem longe do seu ninho é um desterrado, um ausente. E quando se está longe, a busca pelo ninho se dá em mil condições, procurando familiaridades no que nos é diferente ou estranho. Por exemplo, ao caminhar pelas ruas de Copacabana, de vez em quando me deparo com a avenida W3 sul, de Brasília, lugar que conheço de frente e do avesso. Logo essa imagem se dissipa e volta a virar a rua Barata Ribeiro, mas a conexão acaba me tornando familiar ao lugar. E junto ao lugar, vêm as pessoas e as coisas que o compõem.

E se esse longe geográfico for algo irrisório? E se esse longe for tão ou mais longe que essa distância física que nos separa do ninho? É assim que sinto o apátrida. O homem sem pátria, sem lastro, sem raiz. Aquele que nasceu em sabe-se onde, cresceu em sabe-se como e agora vive, sabe-se por quê. Homem cuja identidade lhe foge, não porque é fraca, mas porque é múltipla, disforme, transforme.

Penso nesse homem que se desenraizou por vontade própria para se ver livre no mundo, mas acabou escravo da própria liberdade. Penso nas pessoas que estão nessa eterna busca pelo amanhã, desprezando o hoje de forma tão contumaz. E vivem a sonhar, os apátridas, porque desconhecem o não-sonho.

Vejo no apátrida a transfiguração da imagem e somente da imagem. Ele é a imagem do que ele é. Ele vive dessa imagem e a transmite em mil canais, em mil ondas radiofônicas, voz, texto, luz, som, calor, a imagem é a constante transmissão do que ele é e ele é a constante transmissão dessa imagem. E o que procura o apátrida senão a busca pela busca? Estar em constante busca é a razão de se estar vivo. Mas é uma busca sem foco, é um buscar sem o encontrar. E é disso que ele se alimenta, da necessidade de ter necessidade, das mil vontades, dos mil desejos.

Esse homem é a imagem, mas abomina as imagens que já se passaram. A transformação é o enterro do que já não é. Por isso, o apátrida não tem álbuns de fotografia, não gosta de gravar, muito menos recordar. Por isso, o apátrida não tem terra, porque dela ele não sabe tirar mais nada além de si mesmo.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Mistério de Ângela

Acho que não devemos ter vergonha do que já escrevemos, porque cada palavra é, de alguma maneira, uma célula que constitui aquilo que somos no presente. Ok, isso é amplamente discutível, principalmente quando ficamos debruçados horas e horas sobre um mesmo texto que sempre necessita de cuidados, modificações, novas vírgulas, novas pausas. E a frase sempre poderia ter ficado melhor e a gente sempre se cobra essa melhora, mais cedo ou mais tarde. Mesmo assim, reler o que escrevemos há tempos não deixa de ser fascinante. Ora para saber o que pensávamos, ora para saber como expressávamos aquilo que pensávamos. Uma amiga minha resolveu me mostrar umas redações do segundo grau e na leitura ela se surpreendia em como era reacionária. Ao ler o texto abaixo, me surpreendo em como gostava do surrealismo desde muito cedo. "O Mistério de Ângela" foi um conto anárquico - acho que muito no conteúdo, mas na forma também - que eu escrevi quando tinha uns doze ou treze anos. Escrevi à mão, em um caderno de escola e depois, ao encontrá-lo perdido em uma gaveta, resolvi não perder a chance e passá-lo para o computador.

A história é uma tragédia tão trágica, que fica hilária. A Ângela do título sofre do começo ao fim. Tá certo, há um momentinho de alegria, mas ele dura pouquíssimo. Eu sempre tive dificuldade em criar personagens masculinos e, naquela época, a coisa era pior ainda. Um deles, o Nonô, era pai adotivo da dita cuja e tinha uma relação meio incestuosa com a menina. O marido da Ângela era o empresário-padrão-frio-e-calculista, retirado de alguma novela da época. E o grande amor da Ângela era o maior palerma da história. Pobre mesmo era o Valadão, outro caso da moça, que morreu tragicamente em uma enchente. Aliás, eu tinha uma fixação com enchente que ainda não sei como explicar.

Quem tiver fôlego, me acompanhe nesse delírio. Com vocês, "O Mistério de Ângela".

CAPÍTULO 1 – ÂNGELA

O cavalo cavalgava velozmente. Os cabelos castnhos de Ângela balançavam como o véu em vento. Seus grandes olhos negros adquiriram um ritmo em cada galope. Lá estava aquela mulher, que ontem era menina quer brincava com seu pônei o qual Nonô lhe dera de aniversário. Pensava em tudo que se passava na sua vida. Por que tanta infelicidade? Oh, Meu Deus, porquê? Ontem era uma garotinha. Alegre, feliz. Não tinha preconceitos, não tinha impurezas. Era uma água pura, cristalina, que cintilava ao sol e balançava ao vento. Ontem tinha bonecas. Se amedrontava com sussurros, rangidos. Ontem chorava de coisa pequena. Não via que o mundo era além de sua casa. Casa essa bem cuidada. O jardim coloria a entrada perfumando os visitantes. Até os criados perfumados ficavam. Nonô brincava com a menina. Cavalinho, pula-corda. “Ti Nonô”, como era chamado, vivia Ângela e ela o vivia. Nonô trouxe-a quando pirralha, nem um metro a pequerruxa tinha. Criou como se fosse sua filha. O leite vinha de Vanessa, a vaca mais leitera de toda a região. Jajá vinha buscar Ângela para o banho. Fazia birra, esperneava, mas acabava se entregando como uma condenada, dando adeus para Nonô. Esse velho, bonachão que só ele, dava-lhe um sorriso e beijos, para a menina guardar. Jajá lavava Ângela como uma roupa de seda. Os cuidados eram todos. Passava camomila no cabelo e rosas no corpo. O cheiro da pirralha se espalhava por toda a casa. Então, qunado saía do banho, vinha correndo para Nonô e o velho lhe enchia de beijos, afagos e ternura. Mas tudo isso acabou.

Ângela chegou até a sala procurando alguma lembrança. Procurava Adoro, seu ursinho há muito tempo extinto. Procurava Amendoim, seu cachorro que morrera de infecção estomacal por ser tão enxerido e comer a comida dos cavalos. Jajá não estava mais lá. A preta sofreu um enfarto, caiu dura no chão. Até Ângela viu. Chorou durante um mês. Queria que Nonô lhe comprasse uma preta nova. Igualzinha a Jajá. Com dentes negros e bochechas rosadas. Que lhe preparasse quitures e lhe desse cafuné.

No porta-retratos não havia fotos. Nenhuma lembrança da vida boa que tivera. A cozinha estava suja. Os azulejos portugueses estavam desbotados. A geladeira estava sem motor. Ângela caiu em prantos e não mais saiu de lá. Só quando Oscar apareceu.

Oscar é um homem honesto. “ – Nesse você pode confiar, minha filha”. Nonô lhe dizia com carinho. Os dois se conheceram na faculdade. Oscar cursava o último ano em emgenharia e Ângela estava no primeiro de Assistência Social. Houve uma paixão enorme entre os dois, que depois se transformou em amor. Ângela ainda sente por não ter terminado o curso. O casamento ocupou suas vidas. Oscar conseguiu terminar a faculdade.

Oscar veio consolar-lhe. Estava abalada. Nunca pensou que Nonô pudesse morrer daquela forma. Mas morreu. Já estava doente. Câncer no pulmão. Foi se degradando até morrer. Não queria aceitar aquela condição. Os dois voltaram para casa e deram adeus à casa que Ângela nascera e que traçara seu destino.

Quando chegou em casa, Ângela ficou inerte. Nonô, seu pai, que não era biológico, mas a amou tanto quanto. Foi até o quarto e chorou. Parecia que uma faca fora encravada em seu peito, impedindo-lhe a vida e tirando-lhe a morte. Cada lágrima era vista como sangue. “ – Por que Nonô? Por que Deus não levou um desconhecido, um ninguém?” Um egoísmo foi tomando-lhe até a alma. Oscar não sabia se conversava ou ficava calado. Com aquela tristeza, nem parecia sua casa. As crianças não estavam mais lá. Estavam bem longe, no lar das crianças, no limbo eterno. Um caminhão desgovernado tirou-lhes a vida e Ângela não chorou. Por que na morte de Nonô, Ângela haveria de chorar? Oscar estava confuso. Será que aquela era a sua vida? Não. Não pode ser. Sua vida eram sonhos, festas. A irresponsabilidade era soberana. Não. Aquela não era sua vida. Deus estava errado.

A noite demorou a passar. Parecia que as estrelas perseguiam Ângela. A insônia era inevitável. Seus olhos tomaram a forma de uma cachoeira de lágrimas. Não cessavam nunca. Pensou também nas crianças. Brincavam sorrindo na calçada, alegres. Não viram o caminhão enfurecido, assassino de almas, de vidas, roubar-lhes as suas. Ângela ficara espiando tudo. Aqueles corpos minúsculos se dilacerando como lama em chuva e casa em enchente. Seus sonhos também se foram com a enchente, sua vida, sua alma.

O dia estava nublado. A rua, mórbida. O vento levantava a poeira que entrava na casa abandonada e de lá não saía mais. Oscar foi trabalhar deixando Ângela em seu canto. Voltava no tempo, aquela mulher. Mulher-menina. Se via em casa de Nonô. Os cabelos longos brilhavam no dia esolarado da manhã. Valadão, o amigo meio namorado, vinha todos os dias brincar com a menina. Ele admirava os olhos negros, como jabuticaba, dizia ele. Que menina fascinante! Seu sorriso era o mundo. Todos cabiam nele. Até Valadão! Todos eram felizes. E não sabiam. Valadão se mudou há muito. Foi para um lugar melhor. Seu pai estava em dívidas e sua mãe estava cancerosa. Valadão não queria ir. Chorava escondido para não o chamarem de maricas. Ângela não escondeu o pranto. O amigo iria embora, para nunca mais voltar. Foi para o Rio de Janeiro e morreu na enchente (soube porque o nome no jornal).

Ângela queria se libertar daquele mal. Queria correr pelas ruas gritando felicidade e desafiar os que não estvam de acordo. Mas a quem enganar? Ela não tinha felicidade no peito. Nonô era a última centelha de sua vida. Oscar não lhe significava nada. Ela o via como uma pedra, imóvel, inerte. Sabia que ele a traía, mas não ligava. Qualquer homem faria o mesmo, pensava. A vizinha lhe apareceu na porta. Queria açúcar. Ângela foi buscar. A mulher agradeceu e foi embora. Essa é feliz, pensa Ângela. O cachorro lhe comeu o dedo-médio, o marido a deixou, mas ela é feliz. É feliz porque alguém se preocupa com ela. Seus pais a auxiliam e seus filhos lhe dão apoio. Ângela não tem mais Nonô.

A dona-de-casa não fez jus a seu nome. Não lavou os pratos, não tirou poeira dos móveis, nem tirou o lixo. Ângela não fez nada. Mas chegou a encontrar uma faca. Pegou o instrumento de metal e insinuou encravá-lo em seu peito. Não tinha nada a perder. Mas desistiu. Chorou.
Oscar contratou um motorista. Estava cansado de enfrentar aquele trânsito caótico ao volante. Contratou Mauro. Ainda jovem, mas de vida sofrida. Chegou em casa e deu a notícia à Ângela. Trouxe o motorista para ser apresentado à esposa. Ângela e Mauro se entreolharam. Uma chama brotava no peito de Ângela. Aquilo era amor. Mauro sentiu o mesmo. Nunca hava sentido aquilo na vida. Aquela mulher de aparência cansada dava-lhe uma paz. Uma paz mágica. Então Oscar puxou-o pelo braço e foi falar de negócios.

Ângela não dormiu naquela noite. Aquilo era amor.

O dia, que há muito não nascia ensolarado, raiou mais feliz. Ângela acordou melhor, renovada. Aqueles dois dias de tristeza pareciam ter acabado. Aquela menina-mulher havia despertado. Mas, em um momento ficou pensando: “Como pode haver um amor assim?”. Ângela não acreditava em um amor platônico. Mauro não saía de sua cabeça. Se encontraram rapidamente, só uma vez, e houve aquela explosão. Aquela reação química, nunca sentida, mas sempre falada.

Mauro levantou-se logo. Ele optou por não dormir no emprego. Escovou os dentes, tomou banho, engoliu o café amargo e saiu. Nem teve tempo para pensar. Pensar no amor, na felicidade. Ele havia se apaixonado, mas foi muito rápido. Pensava naquela mulher morena, olhos negros, cabelos longos. Será que ela sentiu o mesmo? – pensava. Como ele poderia se apaixonar por uma mulher mais velha e casada? Preconceitos de juventude, pensava. Tomou o ônibus e se foi.

Por um momento Ângela receou: se aquele homem aparecer? Se acontecer aquilo novamente? Oscar não poderia descobrir. Sentiu um toque nas costas e despertou do transe. Era Oscar dando-lhe bom dia. Perguntou pelo motorista e Ângela negou com um gesto. Oscar não queria que o moço dormisse fora. Queria o motorista vinte quatro horas.

Mauro entrou pelos fundos. Ângela e ele se entreolharam como da primeira vez. Foi imperceptível, mas verdadeiro. Oscar foi se trocar e pediu para que Mauro o esperasse. Ângela ficou fria por dentro. Não sabia o que fazer, mas resolveu oferecer uma xícara de café. Quando foi pegar a xícara, Mauro olhou para Ângela e pegou em sua mão. Foi um acontecimento mágico para os dois. Ângela não queria se entregar. Pensava em Nonô dizendo: “A fidelidade é a única função do marido e da esposa, filha.” Mas, Nonô havia morrido e ela havia descoberto um cartão perfumado no bolso de Oscar prometendo um encontro. Todos os pensamentos se chocaram até que Oscar chegou. Os dois saíram rápido e Ângela ficou inerte, intacta. Não sabia o que fazer nem o que pensar. Queria que aquilo fosse um imenso pesadelo.

Ângela queria sair, arejar. Pegou seu carro e foi passear na cidade. Pensou em ir à fazenda, mas recusou não querendo se lembrar da tristeza da perda de Nonô. Queria declarar seu amor ou desmanchar o que não começou. Estava indecisa. Mas, lembrou-se de Nonô: “Se você não consegue decidir, deixe que o coração decida por você.” Nonô era um sábio, pensou.

Oscar ligou par o celular de Ângela. Ela atendeu com toda calma. Oscar falou-lhe que iria fazer uma viagem urgente e que a própria secretária buscaria suas roupas. Ângela despreocupou-se por um minuto, mas lembrou: o que seria do pré-relacionamento entre ela e Mauro? Oscar havia feito uma fenda na vida de Ângela, fazendo brotar raios de esperança, Ângela por um momento riu. Riu como nunca havia rido. Deus e o destino estavam a seu favor.

Quando chegou em casa, Ângela foi para o quarto. Sentia-se em condições de visitar Nonô. Os três dias que se passaram foram muito intensos e ela não teve a oportunidade de visitá-lo. A sepultura de mármore estava cheia de pássaros. Pardais que comiam algumas sementes deixadas por flores de outro lugar. Ângela sentou-se ao lado da lápide e contou sua vida com esperança de que Nonô ouvisse. Falou do seu novo amor. Pediu conselhos, que ela mesmo poderia se dar, mas preferiu que Nonô os desse. Deixou rosas e margaridas sobre o túmulo e saiu. Nos seus olhos não se encontravam lágrimas, mas sim uma chama, uma esperança.

Ângela voltou a sua casa e encontrou uma grande suspresa. Era Mauro dando-lhe boas vindas. Ele pegou sem a receio a mão de Ângela e deu-lhe um beijo. Foi uma declaração silenciosa de amor. Parecia que os dois estavam vivendo um filme. “Casablanca”, “E o vento levou...” e muitos outros que datavam de muito tempo, mas comtinuavam emocionando. Mauro covidou-a para passear e só voltaram no final da tarde. Ângela se sentiu voltar nos tempos de adolescente onde Nonô ficava à porta esperando-a impaciente. Mauro foi-se e Ângela ficou parada pensando que a vida era boa e que não se precisava de mais nada para ser feliz.
A semana que passou foi mágica para Ângela. Mauro e ela estavam se amando e isso era ótimo para os dois. Ângela se sentiu valorizada. Não pensava mais em Oscar. Mas teve que pensar quando Mauro lhe pediu em casamento. Foi um susto para Ângela. Teria que decidir sua vida naquele momento. Teria que retraçar seu destino. Disse para Mauro que conversaria com Oscar para a separação. Não esperava ter dito aquilo. Ângela tinha medo de Oscar. Não conseguia falar-lhe abertamente. Mas tinha que falar. Era sua vida que estva em jogo.

Duas semanas se passaram. Oscar finalmente chegou ao Brasil. Voltou mais relaxado. Estava pretendendo fazer um cruzeiro com a esposa. O casal se cumprimentou em casa. Ângela estava fria. Queria falar imediatamente com Oscar. Esperou-o tomar banho, trocar a roupa e falou-lhe. Oscar ouviu atentamente. Ângela falou-lhe da instabilidade que as viagens provocavam e da frieza que estava o casamento. Pediu o divórcio. Foi um grande susto para Oscar. Mais que um susto, um tapa, uma apunhalada. Ele pregou: “Que motivo tão grave seria esse?” – perguntou. Ângela calou-se. Preferiu não dizer. Naquela noite ela saiu de casa.

Oscar começou a beber desesperadamente. Não sabia o que fazer. Ângela dormira em um hotel. Não queria ir a casa de Mauro. Queria ficar sozinha. Queria refletir. Mauro não apareceu para trabalhar. Seria horrível ficar ao lado do marido traído. E ainda mais traído por ele. “Não teria cabimento”, pensou. Ele não conseguiu dormir direito. Teve pesadelos constantes. Ângela resolveu ir à casa de Mauro. Estava tonta com aquilo tudo. Fez um convite a ele: - Quer morar na minha fazenda?

CAPÍTULO 2 - CASA

Mauro relutou, mas aceitou. Ângela queria assumir seu amor. Uma amor verdadeiro, sincero. Ela tinha que arriscar.
Não pense você que Oscar não moveu uma palha para impedir o divórcio. Contratou vários advogados. Seu desespero era compreendido. Ele amava Ângela.

Ângela se aproveitou da ausência de Oscar e levou todos os seus pertences para sua nova casa. Sentia uma imensa alegria, uma liberdade nunca sentida. Ângela estava realmente feliz. Chegou até a fazenda. Parou e ficou admirando aquela paisagem: “que paraíso”, pensou. Um paraíso puro, sem mágoas, sem tragédias, sem risco. O terreno era enorme, conforme as contas feitas por Oscar e conforme os olhos brilhantes de Ângela.

Mauro foi até sua casa pegar também o que era seu. Ele estava inseguro, inquieto e com medo. Era como pular de um prédio de olhos vendados. Mas se ele quisesse ser feliz, teria que se arriscar.
A casa, ou fazenda, como dizia Ângela, era de vasta extensão. Seus campos eram de veludo, seus pastos eram de cetim e seus animais eram de uma beleza e valor incalculáveis. Ângela se identifica com tudo aquilo. Crescera, vivera e até se casara naquele lugar.

Ângela recordava os bons tempos naquela casa. Nonô passeava com seu cavalo “Negro”, como era chamado, e encontrou aquela menininha de dois ou três anos parada e chorando em frente à sua porta. Perguntou seu nome e ela nem falar sabia. Havia, no entanto, um colar em seu pescoço com um bilhete preso com uma fita: “Deixo minha filha porque a vida deixarei também. Ângela”. Sim, sua mãe se chamava Ângela. Nonô se impressionou com aquela cena. Sua esposa havia sido vencida pelo câncer há alguns anos e desde então não sentira mais nada em seu peito.

Nonô amara aquela menina como se fosse sua esposa, como se fosse sua filha. Deixou aqueles cabelos castanhos soltarem o aroma das rosas. Ângela deixava a preta Jajá louca com suas brincadeiras, com suas travessuras. Foi uma época feliz. Depois Ângela se casara, tivera dois filhos que morreram e vivera infeliz.

Pensamentos fluíam na cabeça de Ângela livremente, sem compromissso, sem obrigação. Mauro chegou muito cansado devido à mudança. Ele foi logo se deitar e dormiu a tarde inteira.
Oscar se encontrava no bar, bem como nas outras horas do dia. Estava totalmente dominado pela bebida. Não tinha ânimo. Não queria recomeçar. A rua parecia um labirinto. Oscar se apoiava nas fachadas das casas. O medo da vida havia tomado-o conta. Parou em frente à colina. O vento frio entrava pelas suas narinas, provocando uma irritação. Oscar fechou os olhos, mas não olhou para trás e caiu. Era uma pedra em uma pena. Seu corpo soltava raios de vida e recebia sombras de morte. A imagem era terrível. O mar levava o sangue que pintou as pedras por um instante. Oscar havia morrido.

Ângela foi se recolher. A exaustão estava em todo o seu corpo. Mas ela sentia alegria. Parecia que Nonô estava ao seu lado. Cobrindo-a, beijando-a e dando o afago que ela tanto precisara em outros tempos. Mas ela estava com o homem que a amava. Nonô não precisaria mais visitá-la. Agora ela tinha Mauro.

EPÍLOGO

O dia aparecera. O céu mostrava seu azul. Ângela acordara com o barulho da campainha. Era o carteiro com um telegrama: “Oscar morrera. Vá até a delegacia...” Foi um choque. Ninguém a deixava em paz. Sentiu uma culpa corroer-lhe e logo começou a chorar. Mauro acordou sem saber o motivo daquele agudo pranto.

Ângela fora ao Instituto Médico Legal para reconhecer o corpo. Sim, era seu marido. Ficou pensando. Oscar não era mais seu marido. Ângela não era mais adúltera. Não tinha mais nenhum compromisso com ninguém, apenas com o homem que amava. Não sabia se ria ou chorava. Ela havia passado bons momentos com Oscar. Tiveram dois filhos, mas que infelizmente morreram em um acidente. Nonô o considerava um bom rapaz. Realmente a morte estava presente na vida de Ângela.

Ângela herdara o apartamento onde morava e uma grande quantia em dinheiro. Mas Mauro não estava feliz com isso. Por que Ângela ficaria com ele se nem um presente, por mais que fosse banal, ele poderia lhe dar? Na calada da noite, Mauro saía de cena. Como um perdedor, como um cão rejeitado.

Quando acordou, Ângela não sentira a presença do companheiro. Procurava-o por todos os cantos e não o encontrava. Nem um bilhete Mauro havia deixado. Ângela começou a se desesperar. Chamou a polícia, anunciou em rádios, mas não encontrara o seu amor. Os anos se passaram e Ângela ficara deprimida e doente. Era um drama mexicano sem resolução. E assim mais anos de passavam. Mas então uma luz apareceu. Mauro não conseguira viver sem Ângela. Foi para fora do país, mas aquela imagem não saía de sua cabeça. Tomou sua decisão. Não importava se Ângela tivesse ou não dinheiro, se ele não pudesse comprar-lhe presentes. O que importava era o amor entre os dois. Então ele voltou. De peito aberto, Mauro foi até a fazenda reencontrar seu verdadeiro amor. Mas não encontrava Ângela. Procurou-a desesperadamente, mas foi sem sucesso. Logo então um caseiro vizinho deu-lhe a notícia: Ângela havia se matado por alta quantidade de remédios.

É espantoso imaginar qual é o mistério de Ângela. Não havia luz em seu caminho, não havia água em sua rosa. Não podemos dizer que Ângela não teve vida, pois estaríamos mentindo. Mas nela também permanecia a morte. Ângela não aprendeu um grande ensinamento. Ela queria de qualquer jeito encontrar a felicidade. Mas não percebeu que a felicidade nunca é eterna e sim momentânea.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Agora a casa cai

Juscelino é um viúvo amargurado que mora em uma casa caindo aos pedaços no município de São Bentinho. Quando eles descobrem que Dom Pedro I costumava dormir por lá, a filha de Juscelino, Magali, decide tombar a casa e transformá-la em patrimônio histórico. Já o olho de Juscelino cresce mesmo com a proposta do genro, Danilo, que quer construir um shopping center no local. Entenda como funciona o instituto do tombamento e quais as consequências de se ter um imóvel reconhecido como patrimônio histórico e cultural.

Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5

sábado, 16 de maio de 2009

Jô parte 2

Olha só que notícia bacana. Saiu no www.stf.jus.br...

Radionovela "Não escuta que eu grampo" é divulgada no programa Jô Soares


Por meio de correio eletrônico, Guilherme Macedo, autor da radionovela “Não escuta que eu grampo”, transmitida pela Rádio Justiça para todo o Brasil, agradeceu ao "Programa do Jô" por divulgar, na quarta-feria da semana passada (6), o trabalho realizado pela equipe da rádio nas novelas. Há algumas semanas, o apresentador, Jô Soares, mostrou um trecho da radionovela e elogiou a produção da Rádio Justiça.

A novela, como todas as outras que a Rádio Justiça produz, é uma forma popular de discutir e informar sobre os direitos do cidadão. Guilherme informou que até agora já foram produzidas mais de 50 radionovelas veiculadas semanalmente.

“Parabéns ao Guilherme e à Rádio Justiça. Temos que fazer Justiça à Justiça”, comentou Jô Soares, não perdendo o trocadilho.

Desde segunda-feira (11), a Rádio Justiça apresenta a edição do Justiça em Cena intitulada “Saúde de Ferro”. O tema desta vez é o Sistema Único de Saúde (SUS). Conforme a grade de programação da Rádio, “Saúde de Ferro” será transmitida em nove horários, de segunda a sexta-feira às 5h50, 10h50, 13h50, 14h50, 17h50, 20h50, 23h50, 1h50, 3h50. Sábado e domingo, às 20h, a rádio veicula um compacto com a história completa.


Origem

O programa "Justiça em Cena" foi fundado em 2004, quando a Rádio Justiça foi inaugurada. No ano passado, o projeto foi retomado e reelaborado, e conta inclusive com a participação de profissionais do Supremo de diversas áreas, que colaboram de forma voluntária.

Por meio da radionovela Justiça em Cena, a rádio já abordou temas como a Lei Maria da Penha, corrupção e preconceito religioso.