Geralmente um homem longe do seu ninho é um desterrado, um ausente. E quando se está longe, a busca pelo ninho se dá em mil condições, procurando familiaridades no que nos é diferente ou estranho. Por exemplo, ao caminhar pelas ruas de Copacabana, de vez em quando me deparo com a avenida W3 sul, de Brasília, lugar que conheço de frente e do avesso. Logo essa imagem se dissipa e volta a virar a rua Barata Ribeiro, mas a conexão acaba me tornando familiar ao lugar. E junto ao lugar, vêm as pessoas e as coisas que o compõem.E se esse longe geográfico for algo irrisório? E se esse longe for tão ou mais longe que essa distância física que nos separa do ninho? É assim que sinto o apátrida. O homem sem pátria, sem lastro, sem raiz. Aquele que nasceu em sabe-se onde, cresceu em sabe-se como e agora vive, sabe-se por quê. Homem cuja identidade lhe foge, não porque é fraca, mas porque é múltipla, disforme, transforme.
Penso nesse homem que se desenraizou por vontade própria para se ver livre no mundo, mas acabou escravo da própria liberdade. Penso nas pessoas que estão nessa eterna busca pelo amanhã, desprezando o hoje de forma tão contumaz. E vivem a sonhar, os apátridas, porque desconhecem o não-sonho.
Vejo no apátrida a transfiguração da imagem e somente da imagem. Ele é a imagem do que ele é. Ele vive dessa imagem e a transmite em mil canais, em mil ondas radiofônicas, voz, texto, luz, som, calor, a imagem é a constante transmissão do que ele é e ele é a constante transmissão dessa imagem. E o que procura o apátrida senão a busca pela busca? Estar em constante busca é a razão de se estar vivo. Mas é uma busca sem foco, é um buscar sem o encontrar. E é disso que ele se alimenta, da necessidade de ter necessidade, das mil vontades, dos mil desejos.
Esse homem é a imagem, mas abomina as imagens que já se passaram. A transformação é o enterro do que já não é. Por isso, o apátrida não tem álbuns de fotografia, não gosta de gravar, muito menos recordar. Por isso, o apátrida não tem terra, porque dela ele não sabe tirar mais nada além de si mesmo.
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