segunda-feira, 25 de maio de 2009

O Mistério de Ângela

Acho que não devemos ter vergonha do que já escrevemos, porque cada palavra é, de alguma maneira, uma célula que constitui aquilo que somos no presente. Ok, isso é amplamente discutível, principalmente quando ficamos debruçados horas e horas sobre um mesmo texto que sempre necessita de cuidados, modificações, novas vírgulas, novas pausas. E a frase sempre poderia ter ficado melhor e a gente sempre se cobra essa melhora, mais cedo ou mais tarde. Mesmo assim, reler o que escrevemos há tempos não deixa de ser fascinante. Ora para saber o que pensávamos, ora para saber como expressávamos aquilo que pensávamos. Uma amiga minha resolveu me mostrar umas redações do segundo grau e na leitura ela se surpreendia em como era reacionária. Ao ler o texto abaixo, me surpreendo em como gostava do surrealismo desde muito cedo. "O Mistério de Ângela" foi um conto anárquico - acho que muito no conteúdo, mas na forma também - que eu escrevi quando tinha uns doze ou treze anos. Escrevi à mão, em um caderno de escola e depois, ao encontrá-lo perdido em uma gaveta, resolvi não perder a chance e passá-lo para o computador.

A história é uma tragédia tão trágica, que fica hilária. A Ângela do título sofre do começo ao fim. Tá certo, há um momentinho de alegria, mas ele dura pouquíssimo. Eu sempre tive dificuldade em criar personagens masculinos e, naquela época, a coisa era pior ainda. Um deles, o Nonô, era pai adotivo da dita cuja e tinha uma relação meio incestuosa com a menina. O marido da Ângela era o empresário-padrão-frio-e-calculista, retirado de alguma novela da época. E o grande amor da Ângela era o maior palerma da história. Pobre mesmo era o Valadão, outro caso da moça, que morreu tragicamente em uma enchente. Aliás, eu tinha uma fixação com enchente que ainda não sei como explicar.

Quem tiver fôlego, me acompanhe nesse delírio. Com vocês, "O Mistério de Ângela".

CAPÍTULO 1 – ÂNGELA

O cavalo cavalgava velozmente. Os cabelos castnhos de Ângela balançavam como o véu em vento. Seus grandes olhos negros adquiriram um ritmo em cada galope. Lá estava aquela mulher, que ontem era menina quer brincava com seu pônei o qual Nonô lhe dera de aniversário. Pensava em tudo que se passava na sua vida. Por que tanta infelicidade? Oh, Meu Deus, porquê? Ontem era uma garotinha. Alegre, feliz. Não tinha preconceitos, não tinha impurezas. Era uma água pura, cristalina, que cintilava ao sol e balançava ao vento. Ontem tinha bonecas. Se amedrontava com sussurros, rangidos. Ontem chorava de coisa pequena. Não via que o mundo era além de sua casa. Casa essa bem cuidada. O jardim coloria a entrada perfumando os visitantes. Até os criados perfumados ficavam. Nonô brincava com a menina. Cavalinho, pula-corda. “Ti Nonô”, como era chamado, vivia Ângela e ela o vivia. Nonô trouxe-a quando pirralha, nem um metro a pequerruxa tinha. Criou como se fosse sua filha. O leite vinha de Vanessa, a vaca mais leitera de toda a região. Jajá vinha buscar Ângela para o banho. Fazia birra, esperneava, mas acabava se entregando como uma condenada, dando adeus para Nonô. Esse velho, bonachão que só ele, dava-lhe um sorriso e beijos, para a menina guardar. Jajá lavava Ângela como uma roupa de seda. Os cuidados eram todos. Passava camomila no cabelo e rosas no corpo. O cheiro da pirralha se espalhava por toda a casa. Então, qunado saía do banho, vinha correndo para Nonô e o velho lhe enchia de beijos, afagos e ternura. Mas tudo isso acabou.

Ângela chegou até a sala procurando alguma lembrança. Procurava Adoro, seu ursinho há muito tempo extinto. Procurava Amendoim, seu cachorro que morrera de infecção estomacal por ser tão enxerido e comer a comida dos cavalos. Jajá não estava mais lá. A preta sofreu um enfarto, caiu dura no chão. Até Ângela viu. Chorou durante um mês. Queria que Nonô lhe comprasse uma preta nova. Igualzinha a Jajá. Com dentes negros e bochechas rosadas. Que lhe preparasse quitures e lhe desse cafuné.

No porta-retratos não havia fotos. Nenhuma lembrança da vida boa que tivera. A cozinha estava suja. Os azulejos portugueses estavam desbotados. A geladeira estava sem motor. Ângela caiu em prantos e não mais saiu de lá. Só quando Oscar apareceu.

Oscar é um homem honesto. “ – Nesse você pode confiar, minha filha”. Nonô lhe dizia com carinho. Os dois se conheceram na faculdade. Oscar cursava o último ano em emgenharia e Ângela estava no primeiro de Assistência Social. Houve uma paixão enorme entre os dois, que depois se transformou em amor. Ângela ainda sente por não ter terminado o curso. O casamento ocupou suas vidas. Oscar conseguiu terminar a faculdade.

Oscar veio consolar-lhe. Estava abalada. Nunca pensou que Nonô pudesse morrer daquela forma. Mas morreu. Já estava doente. Câncer no pulmão. Foi se degradando até morrer. Não queria aceitar aquela condição. Os dois voltaram para casa e deram adeus à casa que Ângela nascera e que traçara seu destino.

Quando chegou em casa, Ângela ficou inerte. Nonô, seu pai, que não era biológico, mas a amou tanto quanto. Foi até o quarto e chorou. Parecia que uma faca fora encravada em seu peito, impedindo-lhe a vida e tirando-lhe a morte. Cada lágrima era vista como sangue. “ – Por que Nonô? Por que Deus não levou um desconhecido, um ninguém?” Um egoísmo foi tomando-lhe até a alma. Oscar não sabia se conversava ou ficava calado. Com aquela tristeza, nem parecia sua casa. As crianças não estavam mais lá. Estavam bem longe, no lar das crianças, no limbo eterno. Um caminhão desgovernado tirou-lhes a vida e Ângela não chorou. Por que na morte de Nonô, Ângela haveria de chorar? Oscar estava confuso. Será que aquela era a sua vida? Não. Não pode ser. Sua vida eram sonhos, festas. A irresponsabilidade era soberana. Não. Aquela não era sua vida. Deus estava errado.

A noite demorou a passar. Parecia que as estrelas perseguiam Ângela. A insônia era inevitável. Seus olhos tomaram a forma de uma cachoeira de lágrimas. Não cessavam nunca. Pensou também nas crianças. Brincavam sorrindo na calçada, alegres. Não viram o caminhão enfurecido, assassino de almas, de vidas, roubar-lhes as suas. Ângela ficara espiando tudo. Aqueles corpos minúsculos se dilacerando como lama em chuva e casa em enchente. Seus sonhos também se foram com a enchente, sua vida, sua alma.

O dia estava nublado. A rua, mórbida. O vento levantava a poeira que entrava na casa abandonada e de lá não saía mais. Oscar foi trabalhar deixando Ângela em seu canto. Voltava no tempo, aquela mulher. Mulher-menina. Se via em casa de Nonô. Os cabelos longos brilhavam no dia esolarado da manhã. Valadão, o amigo meio namorado, vinha todos os dias brincar com a menina. Ele admirava os olhos negros, como jabuticaba, dizia ele. Que menina fascinante! Seu sorriso era o mundo. Todos cabiam nele. Até Valadão! Todos eram felizes. E não sabiam. Valadão se mudou há muito. Foi para um lugar melhor. Seu pai estava em dívidas e sua mãe estava cancerosa. Valadão não queria ir. Chorava escondido para não o chamarem de maricas. Ângela não escondeu o pranto. O amigo iria embora, para nunca mais voltar. Foi para o Rio de Janeiro e morreu na enchente (soube porque o nome no jornal).

Ângela queria se libertar daquele mal. Queria correr pelas ruas gritando felicidade e desafiar os que não estvam de acordo. Mas a quem enganar? Ela não tinha felicidade no peito. Nonô era a última centelha de sua vida. Oscar não lhe significava nada. Ela o via como uma pedra, imóvel, inerte. Sabia que ele a traía, mas não ligava. Qualquer homem faria o mesmo, pensava. A vizinha lhe apareceu na porta. Queria açúcar. Ângela foi buscar. A mulher agradeceu e foi embora. Essa é feliz, pensa Ângela. O cachorro lhe comeu o dedo-médio, o marido a deixou, mas ela é feliz. É feliz porque alguém se preocupa com ela. Seus pais a auxiliam e seus filhos lhe dão apoio. Ângela não tem mais Nonô.

A dona-de-casa não fez jus a seu nome. Não lavou os pratos, não tirou poeira dos móveis, nem tirou o lixo. Ângela não fez nada. Mas chegou a encontrar uma faca. Pegou o instrumento de metal e insinuou encravá-lo em seu peito. Não tinha nada a perder. Mas desistiu. Chorou.
Oscar contratou um motorista. Estava cansado de enfrentar aquele trânsito caótico ao volante. Contratou Mauro. Ainda jovem, mas de vida sofrida. Chegou em casa e deu a notícia à Ângela. Trouxe o motorista para ser apresentado à esposa. Ângela e Mauro se entreolharam. Uma chama brotava no peito de Ângela. Aquilo era amor. Mauro sentiu o mesmo. Nunca hava sentido aquilo na vida. Aquela mulher de aparência cansada dava-lhe uma paz. Uma paz mágica. Então Oscar puxou-o pelo braço e foi falar de negócios.

Ângela não dormiu naquela noite. Aquilo era amor.

O dia, que há muito não nascia ensolarado, raiou mais feliz. Ângela acordou melhor, renovada. Aqueles dois dias de tristeza pareciam ter acabado. Aquela menina-mulher havia despertado. Mas, em um momento ficou pensando: “Como pode haver um amor assim?”. Ângela não acreditava em um amor platônico. Mauro não saía de sua cabeça. Se encontraram rapidamente, só uma vez, e houve aquela explosão. Aquela reação química, nunca sentida, mas sempre falada.

Mauro levantou-se logo. Ele optou por não dormir no emprego. Escovou os dentes, tomou banho, engoliu o café amargo e saiu. Nem teve tempo para pensar. Pensar no amor, na felicidade. Ele havia se apaixonado, mas foi muito rápido. Pensava naquela mulher morena, olhos negros, cabelos longos. Será que ela sentiu o mesmo? – pensava. Como ele poderia se apaixonar por uma mulher mais velha e casada? Preconceitos de juventude, pensava. Tomou o ônibus e se foi.

Por um momento Ângela receou: se aquele homem aparecer? Se acontecer aquilo novamente? Oscar não poderia descobrir. Sentiu um toque nas costas e despertou do transe. Era Oscar dando-lhe bom dia. Perguntou pelo motorista e Ângela negou com um gesto. Oscar não queria que o moço dormisse fora. Queria o motorista vinte quatro horas.

Mauro entrou pelos fundos. Ângela e ele se entreolharam como da primeira vez. Foi imperceptível, mas verdadeiro. Oscar foi se trocar e pediu para que Mauro o esperasse. Ângela ficou fria por dentro. Não sabia o que fazer, mas resolveu oferecer uma xícara de café. Quando foi pegar a xícara, Mauro olhou para Ângela e pegou em sua mão. Foi um acontecimento mágico para os dois. Ângela não queria se entregar. Pensava em Nonô dizendo: “A fidelidade é a única função do marido e da esposa, filha.” Mas, Nonô havia morrido e ela havia descoberto um cartão perfumado no bolso de Oscar prometendo um encontro. Todos os pensamentos se chocaram até que Oscar chegou. Os dois saíram rápido e Ângela ficou inerte, intacta. Não sabia o que fazer nem o que pensar. Queria que aquilo fosse um imenso pesadelo.

Ângela queria sair, arejar. Pegou seu carro e foi passear na cidade. Pensou em ir à fazenda, mas recusou não querendo se lembrar da tristeza da perda de Nonô. Queria declarar seu amor ou desmanchar o que não começou. Estava indecisa. Mas, lembrou-se de Nonô: “Se você não consegue decidir, deixe que o coração decida por você.” Nonô era um sábio, pensou.

Oscar ligou par o celular de Ângela. Ela atendeu com toda calma. Oscar falou-lhe que iria fazer uma viagem urgente e que a própria secretária buscaria suas roupas. Ângela despreocupou-se por um minuto, mas lembrou: o que seria do pré-relacionamento entre ela e Mauro? Oscar havia feito uma fenda na vida de Ângela, fazendo brotar raios de esperança, Ângela por um momento riu. Riu como nunca havia rido. Deus e o destino estavam a seu favor.

Quando chegou em casa, Ângela foi para o quarto. Sentia-se em condições de visitar Nonô. Os três dias que se passaram foram muito intensos e ela não teve a oportunidade de visitá-lo. A sepultura de mármore estava cheia de pássaros. Pardais que comiam algumas sementes deixadas por flores de outro lugar. Ângela sentou-se ao lado da lápide e contou sua vida com esperança de que Nonô ouvisse. Falou do seu novo amor. Pediu conselhos, que ela mesmo poderia se dar, mas preferiu que Nonô os desse. Deixou rosas e margaridas sobre o túmulo e saiu. Nos seus olhos não se encontravam lágrimas, mas sim uma chama, uma esperança.

Ângela voltou a sua casa e encontrou uma grande suspresa. Era Mauro dando-lhe boas vindas. Ele pegou sem a receio a mão de Ângela e deu-lhe um beijo. Foi uma declaração silenciosa de amor. Parecia que os dois estavam vivendo um filme. “Casablanca”, “E o vento levou...” e muitos outros que datavam de muito tempo, mas comtinuavam emocionando. Mauro covidou-a para passear e só voltaram no final da tarde. Ângela se sentiu voltar nos tempos de adolescente onde Nonô ficava à porta esperando-a impaciente. Mauro foi-se e Ângela ficou parada pensando que a vida era boa e que não se precisava de mais nada para ser feliz.
A semana que passou foi mágica para Ângela. Mauro e ela estavam se amando e isso era ótimo para os dois. Ângela se sentiu valorizada. Não pensava mais em Oscar. Mas teve que pensar quando Mauro lhe pediu em casamento. Foi um susto para Ângela. Teria que decidir sua vida naquele momento. Teria que retraçar seu destino. Disse para Mauro que conversaria com Oscar para a separação. Não esperava ter dito aquilo. Ângela tinha medo de Oscar. Não conseguia falar-lhe abertamente. Mas tinha que falar. Era sua vida que estva em jogo.

Duas semanas se passaram. Oscar finalmente chegou ao Brasil. Voltou mais relaxado. Estava pretendendo fazer um cruzeiro com a esposa. O casal se cumprimentou em casa. Ângela estava fria. Queria falar imediatamente com Oscar. Esperou-o tomar banho, trocar a roupa e falou-lhe. Oscar ouviu atentamente. Ângela falou-lhe da instabilidade que as viagens provocavam e da frieza que estava o casamento. Pediu o divórcio. Foi um grande susto para Oscar. Mais que um susto, um tapa, uma apunhalada. Ele pregou: “Que motivo tão grave seria esse?” – perguntou. Ângela calou-se. Preferiu não dizer. Naquela noite ela saiu de casa.

Oscar começou a beber desesperadamente. Não sabia o que fazer. Ângela dormira em um hotel. Não queria ir a casa de Mauro. Queria ficar sozinha. Queria refletir. Mauro não apareceu para trabalhar. Seria horrível ficar ao lado do marido traído. E ainda mais traído por ele. “Não teria cabimento”, pensou. Ele não conseguiu dormir direito. Teve pesadelos constantes. Ângela resolveu ir à casa de Mauro. Estava tonta com aquilo tudo. Fez um convite a ele: - Quer morar na minha fazenda?

CAPÍTULO 2 - CASA

Mauro relutou, mas aceitou. Ângela queria assumir seu amor. Uma amor verdadeiro, sincero. Ela tinha que arriscar.
Não pense você que Oscar não moveu uma palha para impedir o divórcio. Contratou vários advogados. Seu desespero era compreendido. Ele amava Ângela.

Ângela se aproveitou da ausência de Oscar e levou todos os seus pertences para sua nova casa. Sentia uma imensa alegria, uma liberdade nunca sentida. Ângela estava realmente feliz. Chegou até a fazenda. Parou e ficou admirando aquela paisagem: “que paraíso”, pensou. Um paraíso puro, sem mágoas, sem tragédias, sem risco. O terreno era enorme, conforme as contas feitas por Oscar e conforme os olhos brilhantes de Ângela.

Mauro foi até sua casa pegar também o que era seu. Ele estava inseguro, inquieto e com medo. Era como pular de um prédio de olhos vendados. Mas se ele quisesse ser feliz, teria que se arriscar.
A casa, ou fazenda, como dizia Ângela, era de vasta extensão. Seus campos eram de veludo, seus pastos eram de cetim e seus animais eram de uma beleza e valor incalculáveis. Ângela se identifica com tudo aquilo. Crescera, vivera e até se casara naquele lugar.

Ângela recordava os bons tempos naquela casa. Nonô passeava com seu cavalo “Negro”, como era chamado, e encontrou aquela menininha de dois ou três anos parada e chorando em frente à sua porta. Perguntou seu nome e ela nem falar sabia. Havia, no entanto, um colar em seu pescoço com um bilhete preso com uma fita: “Deixo minha filha porque a vida deixarei também. Ângela”. Sim, sua mãe se chamava Ângela. Nonô se impressionou com aquela cena. Sua esposa havia sido vencida pelo câncer há alguns anos e desde então não sentira mais nada em seu peito.

Nonô amara aquela menina como se fosse sua esposa, como se fosse sua filha. Deixou aqueles cabelos castanhos soltarem o aroma das rosas. Ângela deixava a preta Jajá louca com suas brincadeiras, com suas travessuras. Foi uma época feliz. Depois Ângela se casara, tivera dois filhos que morreram e vivera infeliz.

Pensamentos fluíam na cabeça de Ângela livremente, sem compromissso, sem obrigação. Mauro chegou muito cansado devido à mudança. Ele foi logo se deitar e dormiu a tarde inteira.
Oscar se encontrava no bar, bem como nas outras horas do dia. Estava totalmente dominado pela bebida. Não tinha ânimo. Não queria recomeçar. A rua parecia um labirinto. Oscar se apoiava nas fachadas das casas. O medo da vida havia tomado-o conta. Parou em frente à colina. O vento frio entrava pelas suas narinas, provocando uma irritação. Oscar fechou os olhos, mas não olhou para trás e caiu. Era uma pedra em uma pena. Seu corpo soltava raios de vida e recebia sombras de morte. A imagem era terrível. O mar levava o sangue que pintou as pedras por um instante. Oscar havia morrido.

Ângela foi se recolher. A exaustão estava em todo o seu corpo. Mas ela sentia alegria. Parecia que Nonô estava ao seu lado. Cobrindo-a, beijando-a e dando o afago que ela tanto precisara em outros tempos. Mas ela estava com o homem que a amava. Nonô não precisaria mais visitá-la. Agora ela tinha Mauro.

EPÍLOGO

O dia aparecera. O céu mostrava seu azul. Ângela acordara com o barulho da campainha. Era o carteiro com um telegrama: “Oscar morrera. Vá até a delegacia...” Foi um choque. Ninguém a deixava em paz. Sentiu uma culpa corroer-lhe e logo começou a chorar. Mauro acordou sem saber o motivo daquele agudo pranto.

Ângela fora ao Instituto Médico Legal para reconhecer o corpo. Sim, era seu marido. Ficou pensando. Oscar não era mais seu marido. Ângela não era mais adúltera. Não tinha mais nenhum compromisso com ninguém, apenas com o homem que amava. Não sabia se ria ou chorava. Ela havia passado bons momentos com Oscar. Tiveram dois filhos, mas que infelizmente morreram em um acidente. Nonô o considerava um bom rapaz. Realmente a morte estava presente na vida de Ângela.

Ângela herdara o apartamento onde morava e uma grande quantia em dinheiro. Mas Mauro não estava feliz com isso. Por que Ângela ficaria com ele se nem um presente, por mais que fosse banal, ele poderia lhe dar? Na calada da noite, Mauro saía de cena. Como um perdedor, como um cão rejeitado.

Quando acordou, Ângela não sentira a presença do companheiro. Procurava-o por todos os cantos e não o encontrava. Nem um bilhete Mauro havia deixado. Ângela começou a se desesperar. Chamou a polícia, anunciou em rádios, mas não encontrara o seu amor. Os anos se passaram e Ângela ficara deprimida e doente. Era um drama mexicano sem resolução. E assim mais anos de passavam. Mas então uma luz apareceu. Mauro não conseguira viver sem Ângela. Foi para fora do país, mas aquela imagem não saía de sua cabeça. Tomou sua decisão. Não importava se Ângela tivesse ou não dinheiro, se ele não pudesse comprar-lhe presentes. O que importava era o amor entre os dois. Então ele voltou. De peito aberto, Mauro foi até a fazenda reencontrar seu verdadeiro amor. Mas não encontrava Ângela. Procurou-a desesperadamente, mas foi sem sucesso. Logo então um caseiro vizinho deu-lhe a notícia: Ângela havia se matado por alta quantidade de remédios.

É espantoso imaginar qual é o mistério de Ângela. Não havia luz em seu caminho, não havia água em sua rosa. Não podemos dizer que Ângela não teve vida, pois estaríamos mentindo. Mas nela também permanecia a morte. Ângela não aprendeu um grande ensinamento. Ela queria de qualquer jeito encontrar a felicidade. Mas não percebeu que a felicidade nunca é eterna e sim momentânea.

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