quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quase famosos

O Rio de Janeiro é uma cidade peculiar em relação aos seus famosos. Porque a todo momento você corre o risco de esbarrar em um ator da Globo, da Record, SBT ou qualquer emissora paga ou aberta que tenha alguma filial por aqui. E, ao se deparar com uma dessas ilustres criaturas, a reação geral do carioca (e do não carioca adaptado à cultura carioca) é tratar a situação com a maior normalidade. "Ah, o Antônio Fagundes, claro! Ele estava ontem no supermercado comprando Activia." Talvez seja exatamente por isso que os locais não se surpreendem ao encontrar uma celebridade. Estão todas elas fazendo coisas normais, como pessoas normais, e isso, o tempo todo, cansa. Você pode pensar "Ah, lá vem a Fernanda Montenegro aqui na praia esticar a canga dela do meu lado lado de novo!". Sim, pode ser cansativo ficar posando involuntariamente de papagaio de famoso.

Mas nessa fauna de famosidades há também outras pessoas que circulam por aí, sorrindo, com uma pose distinta, tórax em geral mais aberto, e que você olha uma vez e tem vontade de olhar de novo só pra saber se você as reconhece. São as pessoas com "cara de sou famoso" e você quase sabe quem são, mas, por um simples lapso de memória, elas escapam da sua mente. E aí é que vem a pior parte. Você passa horas e horas se perguntando "da onde conheço essa pessoa?" e nada, nenhuma imagem lhe chega com clareza. É apenas um borrão, um desenho gestáltico perdido na imensidão da psique. E é aí que mora o desespero. Porque a Fernanda Montenegro a gente sabe quem é (e sabe até demais), mas e esse "famoso quem" que insurge na rua, todo cheio de si, parecendo que já protagonizou todas as novelas da Globo e você, pobre mortal, é incapaz de reconhecer?

E muita gente, assim como eu, pode acreditar piamente que o sujeito ou a sujeita de pose e circunstância de fato representa alguma coisa para o imaginário televisivo, teatral ou cinematográfico e você, ignorante das artes, não foi capaz de enxergar. E o que se faz para reparar tamanha injustiça com tamanhos monstros sagrados da dramaturgia? Deixemos que entrem de graça em todas as peças de teatro, boates da moda e coquetéis à esporte fino. É o mínimo que podemos fazer diante de alguém com "cara de sou famoso".

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