segunda-feira, 29 de junho de 2009

Titia é de morte

Danilo decide visitar a tia Eulália, com a intenção de conseguir mais um empréstimo. Dessa vez, ele precisa colocar aparelho nos dentes da filha caçula. Ao chegar à casa da tia, ele encontra Rebeca, a sobrinha criada como filha pela dona Eulália. Os dois percebem que dona Eulália não está respirando e que pode mesmo estar morta. Mas, a última coisa que eles querem é enterrar a pobre mulher, que ganha uma generosa pensão.

Ouça: Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Quase famosos

O Rio de Janeiro é uma cidade peculiar em relação aos seus famosos. Porque a todo momento você corre o risco de esbarrar em um ator da Globo, da Record, SBT ou qualquer emissora paga ou aberta que tenha alguma filial por aqui. E, ao se deparar com uma dessas ilustres criaturas, a reação geral do carioca (e do não carioca adaptado à cultura carioca) é tratar a situação com a maior normalidade. "Ah, o Antônio Fagundes, claro! Ele estava ontem no supermercado comprando Activia." Talvez seja exatamente por isso que os locais não se surpreendem ao encontrar uma celebridade. Estão todas elas fazendo coisas normais, como pessoas normais, e isso, o tempo todo, cansa. Você pode pensar "Ah, lá vem a Fernanda Montenegro aqui na praia esticar a canga dela do meu lado lado de novo!". Sim, pode ser cansativo ficar posando involuntariamente de papagaio de famoso.

Mas nessa fauna de famosidades há também outras pessoas que circulam por aí, sorrindo, com uma pose distinta, tórax em geral mais aberto, e que você olha uma vez e tem vontade de olhar de novo só pra saber se você as reconhece. São as pessoas com "cara de sou famoso" e você quase sabe quem são, mas, por um simples lapso de memória, elas escapam da sua mente. E aí é que vem a pior parte. Você passa horas e horas se perguntando "da onde conheço essa pessoa?" e nada, nenhuma imagem lhe chega com clareza. É apenas um borrão, um desenho gestáltico perdido na imensidão da psique. E é aí que mora o desespero. Porque a Fernanda Montenegro a gente sabe quem é (e sabe até demais), mas e esse "famoso quem" que insurge na rua, todo cheio de si, parecendo que já protagonizou todas as novelas da Globo e você, pobre mortal, é incapaz de reconhecer?

E muita gente, assim como eu, pode acreditar piamente que o sujeito ou a sujeita de pose e circunstância de fato representa alguma coisa para o imaginário televisivo, teatral ou cinematográfico e você, ignorante das artes, não foi capaz de enxergar. E o que se faz para reparar tamanha injustiça com tamanhos monstros sagrados da dramaturgia? Deixemos que entrem de graça em todas as peças de teatro, boates da moda e coquetéis à esporte fino. É o mínimo que podemos fazer diante de alguém com "cara de sou famoso".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Saiu na revista Piauí, edição de junho



Não escuta que eu grampo

As originalidades de uma rádio pública de Brasília

PEDRO SCHPREJER

Na sexta-feira, 1º de maio, o ouvinte do Distrito Federal que sintonizou o rádio na frequência 104,7 MHz se viu diante de um espesso enredo: "O detetive Virgulino Teixeira foi contratado pela dondoca Marilda para seguir os passos do marido dela, o empresário Aderbal. Ao instalar escutas telefônicas na casa e no escritório do empresário, o detetive descobriu um esquema de superfaturamento." Sob os acordes dramáticos de um tango de Piazzolla, a trama se adensava: "Agora, Virgulino quer dinheiro do empresário para não abrir o bico sobre a falcatrua." O próprio Virgulino tratou de se explicar: "Isso não é chantagem. Isso é toma-lá-dá-cá."

O caso já vinha se estendendo havia cinco dias. Na segunda-feira anterior, Virgulino anunciara à dondoca Marilda: "Vou colocar uma escuta telefônica na sua casa. Sou conhecido em todo o universo investigativo como Araponga Grampeado." Na terça, dondoca Marilda começou a hesitar: "Detetive Virgulino, não me leve a mal. Mas ouvi dizer que ficar instalando essas escutas por aí pode dar... pode dar..." Dondoca Marilda parecia ter medo da palavra. Com um suspiro, soltou alarmada: "Pode dar cadeia!"

Na quinta, diante da descoberta de que o marido era corrupto, dondoca Marilda sugeriu que as gravações fossem encaminhadas à polícia. "A senhora enlouqueceu?", perguntou o detetive, ríspido. "Se a polícia receber as fitas com as minhas interceptações telefônicas, quem vai preso sou eu." Didático, Virgulino explicou: "Grampo só é legal com a autorização da Justiça, dondoca Marilda."

O caso não saiu nos jornais. Só existiu para quem é adepto dos folhetins produzidos pela Rádio Justiça de Brasília. Intitulada Não Escuta Que Eu Grampo, a história de Virgulino e dondoca Marilda foi transmitida ao longo de uma semana, em cinco capítulos de cinco minutos cada. Calcada na farra dos grampos, tornou-se a atração mais comentada desde o início da emissora, em maio de 2004.

Coordenadora da Rádio Justiça, Madeleine Lacsko afirma que o Supremo não teve nenhuma participação na escolha do enredo: "Imagina se os ministros do stf vão se preocupar em definir tema de radionovela." Ex-apresentadora de um noticiário da Rádio Jovem Pan, ela garante que a história nada tem a ver com os embates entre o ministro Gilmar Mendes e o delegado Protógenes Queiroz: "A rádio foi criada para dar transparência à Justiça. Eles sabem que, no dia em que houver interferência, isso tudo perde a razão de ser."

A grade da emissora é composta por programas informativos e educacionais, além de transmissões titilantes de sessões do stf. Há espaço ainda para um pouco de música brasileira e debates, bem como para programas infantis que explicam o bê-á-bá do direito a crianças que precisem saber o que é um habeas corpus. Os estúdios estão localizados no subsolo do edifício sede do Supremo, de onde a emissora transmite para todo o Distrito Federal.

Até junho do ano passado, as radionovelas eram esporádicas. Com a boa aceitação do público, os capítulos passaram a ser diários. Ao todo, foram escritas quase sessenta novelas. As tramas remetem a questões jurídicas que estão presentes no dia a dia do cidadão. Em As Aventuras do Defensor Público, a dupla de funcionários da Justiça Bartolomeu e Robson enfrenta temidos vilões do Planalto Central. Um Estranho no Ninho fala sobre o Estatuto do Estrangeiro. Quem Viver Verão - assim mesmo, com jogo de palavra - aborda os direitos do consumidor durante uma viagem de férias: gasolina adulterada, venda de bilhete de ônibus duplicado, extravio de bagagem.

O cérebro por trás dos folhetins é Guilherme Macedo, jornalista brasiliense de 28 anos, especialista na cobertura do Judiciário. Para compor as tramas, Macedo se apóia no tripé Nelson Rodrigues-Dostoiévski-Cassiano Gabus Mendes. Diz que o primeiro "entendeu como se escreve diálogo no Brasil"; o segundo mostrou em Crime e Castigo "o que é a justiça na cabeça das pessoas"; quanto ao último, Macedo sustenta que a morte de Gabus Mendes representou o fim "das novelas engraçadas de crítica social" no país. Vez por outra, o dramaturgo grava participações especiais nas histórias: já fez um cão falante e um pisca-pisca vaidoso que exigia ser chamado de "Iluminador Natalino".

Os personagens são interpretados por funcionários do Supremo, nas brechas do expediente. Virgulino Teixeira recebeu a voz de William Galvão, apresentador do noticiário da própria Rádio Justiça. Dondoca Marilda foi vivida por Odette Rocha, funcionária concursada do stf. Os dois são o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall da Rádio Justiça, o par mais constante das peças de Macedo. O elenco de apoio varia. Luiz Flávio Borges D'Urso, presidente da oab de São Paulo, já fez uma ponta, interpretando por telefone o Doutor Palhares, um advogado trabalhista da trama Alice no País do Trabalho.

Fiel a Nelson Rodrigues e Dostoiévski, Não Escuta Que Eu Grampo termina de maneira trágica - ainda que cívica. Imbuída de espírito cidadão, dondoca Marilda resolve denunciar Aderbal, o marido corrupto, mesmo depois de descobrir que ele não era infiel. "Ó, duvida cruel!", suspira, antes de mandá-lo em cana. A operação termina com a prisão de quinze pessoas, dentre as quais o detetive Virgulino Teixeira, acusado de gravar ilegalmente a conversa alheia.

Guilherme Macedo defende a dura decisão de sua personagem: "Mas ela estava sendo traída! Aderbal era infiel em relação à coisa pública. Marilda se sentiu como o governo ao ter os cofres esvaziados."

Espera-se uma chuva de divórcios em Brasília.