
Carlos e Tina são um típico casal de classe-média da década de 70, até que em um belo dia ela decide sair de casa. Diz que está cansada de viver essa vidinha mais ou menos, normatizande e normalizada, sabe que ele tem uma amante, mas não liga. Tina quer o divórcio. Carlos não aceita, discute, não compreende o porquê, a razão de Tina querer deixá-lo. Ora, se todos são assim, por que ela não pode ser também? A discussão aumenta, caminha e chega até o hall do elevador. Em um instante precioso, Carlos percebe que a porta do elevador está aberta, mas ele não está lá. É nesse momento que ele decide empurrar a mulher no fosso do elevador. Ali inicia a imensa culpa que irá torturar Carlos.
Ele tenta desviar do peso do homicídio, do peso da culpa, afirmando que o assassino de Tina não era ele, mas o fosso. Ora, quem havia matado a mulher tinha sido a queda, a queda provocada pela ausência do elevador, não ele, não o homem que a amava. Quem acompanha de perto o sofrimento e a angústia de Carlos é Isabel, amiga do casal, que chega após o enterro. Ele não aguenta o peso da culpa e dispara: "matei Tina". Mas logo volta atrás: "não, não matei. Quem matou foi o fosso." Incrédula, Isabel procura entender a posição de Carlos, entender a briga, a discussão, ver os motivos, tenta se acalmar, racionalizar o problema. Mas o ódio a consome. Por que teve que saber a verdade? Por que não acreditar que a amiga havia morrido acidentalmente?
Para completar esse angustiante triângulo, eis que surge Marta, a vizinha, a sozinha, a professora, a alcoviteira. Ela assistiu à toda cena do crime pelo olho mágico e resolve se divertir às custas de Carlos. Tudo porque ele não tinha sido um bom vizinho quando teve a chance.
Esse é o enredo de "A Culpa", filme de média-metragem escrito em 2005, filmado em 2005/2006 e prestes a sair do forno. Ele foi dirigido por um amigo, colega, excelente e premiadíssimo diretor, Cássio Pereira dos Santos.
"A Culpa" foi o primeiro roteiro que escrevi. Ganhamos uma verba do Fundo de Arte e Cultura do DF e resolvemos tocar esse projeto, que tinha "bifes" e mais "bifes" de diálogos. (Para quem não sabe, "bifes" são aqueles textos enormes ditos por um só personagem, que enchem o roteiro. O filme fica parecendo um monólogo e o ator precisa se transformar em um gênio da "decoração" de falas.)
Ainda não sei como ficou o resultado do filme, mas confio inteiramente no talento do Cássio. Aqui publico um trecho de "A Culpa", fornecido pelo diretor. Segundo ele mesmo disse na época, o material está bruto, sem decupagem, e nessa mesma época ele nem sabia se iria ou não utilizá-lo. Ah, Cássio, utiliza, vai!
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