E eles se encontraram, finalmente. Cruzaram os olhos, a boca de cada um fez um sutil movimento. Estavam encantados, felizes por aquele momento inesperado, mesmo que vislumbrado em um pensamento perdido, entre oceanos de outras tantas conjecturas tão menos românticas. Mais tarde ele percebeu, com alguma presunção, que havia escrito palavra por palavra sobre tudo o que havia acontecido. A surpresa foi ainda maior quando adivinhou o nome, o tamanho das mãos, o cheiro um pouco adocicado do perfume. Tudo era descrito com minúcias, algumas frases demonstravam uma empolgação que até parecia meio falsa, mas naquele momento elas mereciam estar lá. Era uma nova história sendo escrita antes mesmo do acontecido, antes mesmo da chuva que caía há mais de sete dias sobre o mesmo local. Só que naquele dia fazia sol e ele fez questão de frisar: fazia sol.
Ao cruzar os olhares, também cruzaram os braços. Estavam indecisos. E depois?
- O amor, respondeu um.
E depois do amor?, perguntou o outro, já pensando nos termos práticos, na união estável, na guarda das crianças e naquela conta chata de luz e de água que chegava sempre um dia depois do vencimento.
- Após o amor, a solidão conjunta, entre uma refeição e outra. Depois disso, um desconhecido abismo, onde enterraremos todas as nossas esperanças. – disse e sorriu logo depois. - Todas as esperanças um do outro – completou.
E aquele encontro já tinha forma, conteúdo, uma estrutura pronta. Não era um idílio apenas, uma idéia escrita noites antes, em um momento de quase desespero. Ele havia descrito um acontecimento, mas naquele exato momento quando as palavras surgiam na tela do computador, ele não fazia a menor idéia de que, de fato, haveria uma realização. Aliás, ele nem pensava ao certo em realizar as palavras. Na hora da escrita, elas já estavam realizadas, organizadas e formatadas. Não havia, em sua mente, um após. Não havia, em seus pensamentos, um banho, dentes escovados, água fria por entre os dedos, sete dias de chuva e um de sol.
Não havia também o inusitado. Mas isso ninguém pode saber. Ao filosofar sobre o fato, quando os dois estavam quase despidos, ele soltou que “ninguém espera pelo inusitado”.
- O milagre é um inusitado – disse o outro. Ele fingiu que não ouviu. Concordou em silêncio. Sim, o milagre é um inusitado e as pessoas esperam por ele. Mas o milagre é diferente. É diferente porque é salvação.
- Você não esperava por uma salvação? – adivinhou o outro. Não havia como discordar. Sim, esperava por uma salvação, uma indicação, qualquer coisa que o tirasse de onde estava. Qualquer coisa que fizesse a chuva dar uma trégua, o trabalho deixar de existir por alguns dias, as costas pararem de doer um pouco. Não pedia muito, apenas algo que não existisse naquele momento. É isso: pedia algo que não estivesse existindo, que fosse criado naquela hora. Mas você existia antes, não?
- Não do jeito que você me vê. Eu era outro antes de te conhecer. Comecei a existir, da forma como sou, quando te encontrei.
Então era verdade. As palavras são o ponto de partida de toda existência.
*texto concebido em dezembro de 2007
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
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